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Escritores e leitores tomam as ruas de Paraty durante a sétima edição do encontro que movimenta a cidade histórica todos os anos Fonte: Agência Brasil
Escritores protestam contra acordo ortográfico Paraty (RJ) - Um antigo casarão de Paraty foi palco na manhã de hoje (3) de um protesto contra o acordo assinado entre oito países de língua portuguesa para uniformizar a ortografia. Os autores angolano Ondjaki e brasileiro Marcelino Freire acusaram o acordo de atender a interesses comerciais e chamaram a atenção para o impacto das novas regras para as próximas gerações.
“Eu adotei o acordo para os textos que publico, mas o faço com profundo pesar. Trata-se de uma questão comercial”, disse Freire, autor de Balé Ralé.
As reservas de Ondjaki quanto à implantação do acordo recaem sobre a educação infantil. “Como vamos educar, do ponto de vista da grafia, as próximas gerações? Qual é o plano para as crianças?”, questionou o angolano, que publicou Bom dia, camaradas.
Os dois participaram da mesa literária Acordo Ortográfico em questão, na Casa da Cultura, dentro da programação oficial da 7ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).
Ondjaki queixou-se ainda da falta de uma ampla consulta que referendasse o acordo. “Os países não foram auscultados. Apenas um grupo de pessoas tomou a decisão. Não está claro que a maioria quer as mudanças. A decisão veio de cima. Não pode ser uma decisão política. A língua pertence a todos”, afirmou, acrescentando que, em Angola, a adoção do acordo ortográfico foi “profundamente ignorada”.
O angolano argumentou ainda que uma das características mais marcantes da língua portuguesa é a diversidade. “Não consigo ver a vantagem deste acordo se tanta gente gosta da diversidade”, afirmou. “Não existe lusofonia. Existe a língua portuguesa. Ela sobrepôs o nosso passado histórico. Não ficou na memória que Angola exportou escravos. Não é disso que tratamos.”
Não há cidadania sem livro, diz Milton Hatoum Paraty (RJ) - O escritor Milton Hatoum vai direto ao ponto ao falar da realidade brasileira. Para ele, não há cidadania sem livro e política pública tem que ser feita “no miúdo”. A declaração foi dada em entrevista à Agência Brasil, em que antecipou algumas das reflexões que devem marcar o debate com Chico Buarque na mesa literária Sequências Brasileiras, hoje (3), na sétima edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).
Em comum, os dois analisaram a realidade brasileira em seus mais recentes livros. Em Leite Derramado, Chico Buarque repassa a história do Brasil a partir das memórias do narrador, que, próximo de morrer, desfia passagens de apogeu e declínio de sua família em quatro gerações. Já Hatoum ambienta A Cidade Ilhada em Manaus, palco também de Dois Irmãos, que explora a presença árabe na Amazônia.
No café ao lado da Tenda dos Autores, que receberá as maiores estrelas da Flip até domingo, Hatoum cobrou “mudanças estruturais” na política brasileira e o engajamento das prefeituras nas políticas voltadas à educação.
“Eu, que ando muito por esse país, observo que os livros do Ministério da Educação estão chegando às escolas e às bibliotecas. Isso é um alento para quem escreve, para quem dá tanta importância a leitura”, disse. “Mas política pública tem que ser feita no miúdo, nos municípios."
Segundo ele, as políticas públicas não devem "obrigar ninguém a ler". "Mas é um absurdo, para não dizer um crime, você não permitir o acesso à leitura a milhões de crianças pobres no Brasil. A política do livro deve ser uma prioridade de qualquer governo. Não há cidadania sem leitura”, disse.
Hatoum cobrou ainda a valorização dos professores e defendeu a implantação de uma política de salários para a categoria a partir de 2010. “É uma vergonha que professores ganhem menos do que um salário mínimo. Qualquer país desenvolvido, qualquer país civilizado investiu muito na educação, no livro, na formação dos professores, nos salários dos professores. E isso eu acho positivo.”
Se a educação evolui no Brasil, o mesmo não acontece com a política, disse Hatoum. O autor observa avanços pontuais, sobretudo na educação, que prometem uma “mudança futura”, mas reclama da demora em mudanças estruturais.
“O Brasil de hoje ainda é desigual e injusto, mas há avanços pontuais que prometem uma mudança futura. Eu sinto falta de uma mudança mais estrutural, ética. Veja o que acontece no Senado”, disse o escritor, em referência à crise política deflagrada após denúncias de irregularidades administrativas envolvendo a Casa. Dawkins defende fim da influência da Igreja, em conferência na Flip Paraty (RJ) - Evolucionista em evidência, o inglês Richard Dawkins leva a sério o que parece ser uma missão: defender a ciência e o fim da influência da religião no mundo. Durante a conferência na noite de ontem (2), na 7ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Dawkins reconheceu a religião como fonte de alívio e conforto, e sua forte influência nas artes, mas não considerou os dois argumentos suficientes para validá-la.
“O fato de as pessoas encontrarem alívio e conforto na religião não significa que ela seja verdadeira”, afirmou, acrescentando, que, se a religião foi a fonte de inspiração para os artistas, o interesse estava no dinheiro. “Grandes artistas vão aonde está o dinheiro. A verdade é essa. E as pessoas que tinham dinheiro estavam na Igreja”, completou.
A participação de Dawkins é um dos destaques da Flip no ano em que a publicação de A Origem das Espécies, de Charles Darwin, comemora 150 anos. Autor do polêmico livro Deus, um Delírio, traduzido para 31 idiomas, ele insiste que não há evidência para a criação do Universo tal como sustenta a religião. “O mundo é cheio de mitos maravilhosos, com uma beleza poética fabulosa”, disse.
O biólogo defendeu o ateísmo e, bem humorado, convocou os ateus a saírem do armário. “Há muitos ateus que nunca ousaram levantar a sua voz. Nós fomos educados para não atacar a religião. A crítica mais suave pode soar agressiva”, afirmou.
Perguntado sobre o medo da morte, Dawkins disse que teria, caso fosse religioso e pelo mistério que existe em torno dela, e o que vem depois. “Não antecipo, nem aguardo ansiosamente o processo da morte. Faço parte da única espécie condenada a sofrer”, disse.
Dawkins encerrou a sua participação, no palco principal da Flip, respondendo a um leitor que, da plateia, quis saber qual seria a reação do cientista se se descobrisse diante de Deus. Ele afirmou que, primeiramente, perguntaria de qual deus tratava-se. Em seguida acrescentaria: “Não há evidência de que você seja Deus”. É um erro achar que a economia pode melhorar situação política da China, dizem escritores Paraty (RJ) - A jornalista Xinran transformou 100 horas de entrevistas com 20 pessoas que viveram a Revolução Cultural, nos anos 1960, no livro Testemunhas da China. Já o escritor Ma Jian romanceou o massacre da Praça da Paz Celestial, que completou 20 anos em 4 de junho último, e batizou seu livro de Pequim em Coma.
As duas obras foram apresentadas ontem (2) pelos autores na mesa China no divã, uma das mais aguardadas da 7ª Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), que recebeu, pela primeira vez, representantes da literatura chinesa.
Os escritores, no entanto, minimizaram a preponderância econômica da China como fator de pressão para o fim das restrições às liberdades civis. “Há esperança de que a economia melhore também a situação política na China. Isso é um grande erro”, disse, taxativo, Ma Jian.
Ele relembrou os dias das manifestações estudantis que foram duramente reprimidas pelo governo chinês. A reação aos protestos é lembrada pela imagem de um jovem chinês, sozinho e desarmado, impedindo a passagem de um tanque pela Praça da Paz Celestial, no dia seguinte ao massacre. “A limpeza do massacre foi pior do que o próprio massacre”, contou.
O romance Pequim em coma tem, portanto, um elemento de reparação para Ma Jian, por sua ausência nos dias mais violentos da repressão. Ele havia deixado Pequim para visitar o irmão doente que estava em coma. A idéia do livro surgiu enquanto ele observava o irmão no leito de hospital. “Pensei: ‘ele é um sortudo’”, confessou o escritor.
Enquanto a China recuperava-se da violenta repressão que se seguiu à onda de protestos, a jornalista Xinran preparava-se para coletar relatos sobre a Revolução Cultural de Mao Tse-tung. Vinte anos depois publicou Testemunhas da China, um resgate da história recente contada por quem viveu sob o governo de Mao. A pesquisa, disse, ainda não terminou.
“Eu não tenho muito interesse no poder político e econômico da China. O que me interessa são as mães e avós chinesas, que são as responsáveis pelo futuro daquele país. A história não pertence só aos vencedores, mas também aos perdedores. O passado é a raiz do presente e do futuro. Este é o meu foco”, afirmou Xinran.
A escritora lamentou a dificuldade dos chineses em contar sua própria história. “Foi difícil extrair qualquer história”, disse. “É uma longa marcha até que as pessoas compreendam o que é a China e o povo chinês.”
Já Ma Jian não escondeu a decepção com os jovens que presenciaram o massacre da Praça da Paz Celestial e que adotaram um tom moderado. “São vozes moderadas. Eles não estão certos quanto ao seu papel na história. Outros escritores, que são dissidentes, têm medo de escrever a verdade daquela época. São poucos os que querem tocar no assunto”, disse.
Mas a coragem de Ma Jian tem um preço. Ao público da Flip, ele confessou o receio de voltar à China. “Talvez não possa visitar minha filha em seu aniversário no próximo dia 12 de julho”, lamentou. “Meu livro é objeto de censura. Fui alertado para isso. Vivo um dilema: retorno ou não à China?”. Cientista espera que o mundo viva sem influência da religião Paraty (RJ) - Evolucionista em evidência, o biólogo inglês Richard Dawkins levará ao palco principal da VII Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em sua conferência marcada para ontem (2), uma apaixonada defesa da ciência e da razão em detrimento da religião. O convite a Dawkins é um dos destaques da Flip no ano em que se comemoram os 150 anos de A origem das espécies, livro de Charles Darwin.
Autor do polêmico livro Deus, um delírio, em que nega qualquer preceito para explicar a origem da vida, Dawkins reiterou que o mundo sem religião é, sim, parte da evolução da humanidade. “Eu realmente espero que o mundo viva sem religião”, disse, em entrevista coletiva.
O biólogo reconheceu, contudo, que fé e ciência podem conviver e citou o físico Albert Einstein, que, não raro, fazia referências a Deus. “Mas Einstein não acreditava em nenhum tipo de Deus personalizado. Por Deus, Einstein entendia como o profundo mistério que ainda não compreendemos”, ressaltou. Festa literária de Paraty começa com homenagem a Manuel Bandeira Paraty (RJ) - O escritor e crítico literário David Arrigucci Jr. abriu dia (1º) a 7ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) com uma conferência sobre o poeta pernambucano Manuel Bandeira (1886 –1968), o homenageado desta edição.
Autor de Humildade, Paixão e Morte: a Poesia de Manuel Bandeira, Arrigucci Jr. levou ao palco principal, na noite de abertura da Flip, a tradução da obra de Bandeira. Para o crítico, o poeta pernambucano tinha a sensibilidade afiada e sua poesia não escondia a ligação com a morte, com a qual conviveu longo período de sua vida por causa da tuberculose.
Mas foi a proximidade com o cotidiano que despertou em Bandeira, na visão do crítico, “o grande poeta”. Ele morou na Lapa, no centro do Rio de Janeiro, nos anos 20, período em que conviveu com o “humilde cotidiano do Rio de Janeiro. Foi o nascimento do grande poeta”, definiu Arrigucci Jr., durante a conferência de abertura da Flip.
Depois, em entrevista à Agência Brasil, Arrigucci Jr. disse que o período na Lapa foi importante para a criação poética de Bandeira. “[A poesia de Bandeira] dependeu muito desse momento tão especial na vida dele. Foi um momento de solidão, de pobreza e de total desvalimento diante da morte", disse.
Segundo o crítico, “toda a trajetória de Bandeira era um aprendizado de superar o sentimentalismo. Para o poeta pernambucano, a poesia era feita de “circunstâncias e desabafos”, momento em que agia com “certa agudeza”.
Pelo que Manuel Bandeira representa não apenas para a poesia, mas também para a literatura, o resgate de sua obra na 7ª Flip paga uma espécie de dívida do evento com a poesia. A Flip só tinha homenageado, até então, o poeta Vinícius de Moraes.
Os 34 autores convidados para a 7ª Flip revezam-se no palco principal a partir desta quinta-feira (2) em Paraty, no litoral sul do Rio de Janeiro. Off Flip apresenta autores alternativos e independentes Paraty - Fora dos cobiçados palcos da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), uma grupo de artistas, uns já conhecidos, outros dando os primeiros passos, promete maior interação com o público e improviso na apresentação de suas obras. Trata-se da Off Flip, evento paralelo que prestigia o circuito alternativo e independente de produção artística e cultural. “A Off Flip é um caldeirão que abraça tudo que está do lado de fora da grande cena. Todos que não estão em evidência, mas que tem uma rede literária na mão, estão na Off”, contou a organizadora Lia Capovilla em entrevista à Agência Brasil.
Segundo ela, desde 2005, quando começou, a Off Flip sobrevive apenas com a verba repassada pela Prefeitura de Paraty (RJ). Mas, com escassos R$ 45 mil em caixa, a Off, como a chamam seus organizadores, conseguiu atrair 80 escritores para o evento que começou hoje (1) paralelamente à programação oficial da Flip. “Neste período, criamos um prêmio literário internacional e um selo editorial pelo qual estamos nos preparando para publicar autores nacionais e lusófonos. Não é pouca coisa”, disse, orgulhoso, o diretor de programação literária da Off Flip, Ovídio Poli Junior.
O Prêmio Off Flip de Literatura 2009, que está em sua quarta edição, concede uma bolsa de criação literária de R$ 5 mil para o primeiro colocado em cada gênero: conto e poesia.
A principal característica da Off Flip é a interação do artista com o público, afirma Lia Capovilla. Enquanto a Flip tem a formalidade das mesas literárias da programação oficial, nas quais o escritor é entrevistado por alguém credenciado e divide a fala com outro, o despojamento dá o tom na Off Flip.
“Quem se apresenta na Off se sente mais a vontade. É um ambiente despojado. Quem participa são escritores interessados na atmosfera cultural da Flip”, afirmou Lia. “A Off Flip é um espaço alternativo que possibilita ao autor participar de forma mais ativa”, acrescentou Ovídio. Ele destaca a participação da coordenadora do Fórum das Letras de Ouro Preto, Guiomar de Grammont, que fará uma releitura do Guia de Ouro Preto, de Manuel Bandeira, o homenageado da 7ª Flip. O evento será uma espécie de passeio por Ouro Preto a partir da perspectiva de Bandeira. A participação de Guiomar de Grammont será na quinta-feira.
No dia seguinte, a infância do poeta pernambucano será discutida a partir da leitura do poema Profundamente por Antonio Carlos Secchin, poeta e crítico literário, membro da Academia Brasileira de Letras. A programação da Off Flip prevê ainda saraus literários, lançamento de livros e um encontro das culturas quilombola e indígena. Flipinha busca formar futuros leitores Paraty (RJ) - Além dos holofotes que cercam os cinco dias da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que começa hoje (1º), há um esforço, durante todo o ano, de formação de novos leitores e valorização do patrimônio local. O resultado do trabalho de 7 mil alunos da rede de ensino de Paraty nas oficinas literárias e de artes plásticas deságua na Flipinha, destinada exclusivamente ao público infantil.
“A Flipinha não é somente um evento dentro da Flip. É um projeto educativo desenvolvido ao longo do ano. Duas linhas são fundamentais para os idealizadores: o incentivo à leitura e a valorização do patrimônio material e imaterial de Paraty”, disse, em entrevista à Agência Brasil, a coordenadora-geral da Flipinha, Cristina Maseda.
A EBC - Empresa Brasil de Comunicação fará a cobertura dos eventos da Flip, com notícias diárias na Agência Brasil, TV Brasil e Rádio Nacional.
O contato com os livros é estimulado nas oficinas literárias. Em 2009, o projeto Mediação de Leitura atingiu 5 mil alunos de 12 escolas da cidade. Durante esta Flipinha, professores serão capacitados como mediadores para que o projeto não perca fôlego.
Crianças e adolescentes de Paraty cuidam ainda dos preparativos da festa. Máscaras e bonecos de papel machê com os rostos de escritores infanto-juvenis e de seus personagens são exibidos na Praça da Matriz e em outros pontos de visitação da cidade. O material é produzido nas oficinas de cenografia e ilustração das quais participam artistas locais.
Seguindo os passos da Flip, a Ciranda dos Bonecos da Flipinha também vai homenagear o poeta pernambucano Manuel Bandeira com personagens de sua obra espalhados por Paraty. Além dos bonecos de papel machê, outro destaque da Flipinha é a instalação da biblioteca voltada para o público infantil na Praça da Matriz.
Uma tenda abrigará, nos dias da festa, leituras de textos infantis que serão apresentados por escritores convidados. Abrindo a programação, haverá leituras da poesia de Bandeira. Na Flipinha, a escritora Ruth Rocha comemorará 40 anos de literatura. Seu livro Marcelo, Marmelo, Martelo, que já vendeu 1 milhão de exemplares, foi adaptado e será encenado durante a festa.
Os adolescentes terão, pela primeira vez, um espaço exclusivo na festa literária. A FlipZona vai oferecer ciclos de debate sobre novas mídias e tecnologia. “A criança já lê o mundo ao redor, mas o nosso objetivo é transformar Paraty em uma cidade de pessoas com o gosto e o hábito da leitura. E é uma satisfação enorme ver que, com poucos recursos, é possível transformar a realidade de uma cidade”, comemora Cristina. Com convicção, a coordenadora da Flipinha resume com uma frase o impacto da literatura sobre as crianças: “O universo literário vai transformá-las em cidadãos críticos”. Flip 2009 movimenta cidade histórica no Rio Paraty (RJ) - As ruas de pedra da pequena Paraty, a 235 quilômetros do Rio de Janeiro, serão tomadas por escritores e leitores a partir de hoje (1º), quando começa a sétima edição da festa literária (Flip) que movimenta a cidade histórica todos os anos, desde 2003.
A Flip começou como um pequeno e ambicioso encontro entre autores e amantes dos livros. Passados os anos, transformou-se no maior evento literário do Brasil.
Na atual edição, foram convidados 34 romancistas, ficcionistas, historiadores, jornalistas e quadrinistas para não apenas apresentar suas obras, mas debater questões sociais e políticas com um público que deve superar o de 2008, quando 20 mil pessoas deslocaram-se para Paraty para prestigiar a festa literária. O número de visitantes esgotou a capacidade hoteleira da cidade.
“Parece que a festa firmou-se pela qualidade de sua programação. Embora não tenham lido todos os autores que estarão na festa, as pessoas vão à Flip porque sabem que encontrarão discussões interessantes”, opina Flavio Moura, curador da festa.
Além da programação oficial, que ficou sob a responsabilidade de Moura, eventos paralelos movimentam a Flip, como o projeto educativo Flipinha, voltado para o público infanto-juvenil, a FlipZona, que estréia como espaço exclusivo para adolescentes, e a Off Flip, dedicado à produção artística alternativa.
Segundo a assessoria de imprensa do evento, visitantes e participantes deixaram em Paraty, durante a Flip de 2008, R$ 4,76 milhões. Mil empregos foram criados e 250 trabalhadores foram contratados temporariamente.
O custo da Flip foi de R$ 3,46 milhões no ano passado, mas subiu para R$ 3,76 milhões em 2009. O dinheiro foi captado com empresas públicas e privadas pela Associação Casa Azul, organização da sociedade civil de interesse público que atua em Paraty desde 1994.
O charme de Paraty, que respira cultura nos cinco dias da Flip, também ajuda a atrair o público, acrescenta Moura. A cidade, que é patrimônio histórico nacional, foi fundada em 1667. Viveu seu apogeu econômico devido aos engenhos de cana-de-açúcar. No século 18, viu escoar por suas águas o ouro e as pedras preciosas de Minas Gerais. Festa Literária de Paraty abre espaço para ciência e temas contemporâneos Em dívida com a poesia, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) começa quarta-feira (1º) e vai homenagear, em sua sétima edição, o poeta pernambucano Manuel Bandeira (1886-1968). O único poeta a quem a Flip rendeu homenagem foi Vinícius de Moraes (1913-1980) na primeira edição, em 2003.
A programação oficial, que inclui 34 romancistas, ficcionistas, historiadores, jornalistas e quadrinistas, promete, além do resgate e da valorização da obra de Bandeira, reflexões sobre ciência, religião, política e direitos humanos nas ruas da histórica Paraty. “Fazia tempo que a poesia não tinha destaque na Flip. Entre os poetas, Bandeira é um dos primeiros que aparece”, explicou o curador da festa, Flavio Moura em entrevista à Agência Brasil.
A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) fará a cobertura da Flip com notícias diárias pela TV Brasil, Agência Brasil e Rádio Nacional.
O ineditismo é a marca mais forte da sétima edição da festa. Abrindo a programação oficial, na quinta-feira (2), quatro representantes da nova geração discutem a produção de quadrinhos na mesa Novos Traços. “A Flip sempre procura dar destaque a escritores jovens, que ainda não têm carreira consolidada e em quem aposta. Este ano, o incentivo vai não apenas para escritores, mas para quadrinistas novos”, disse Moura.
No mesmo dia, haverá outra atração inédita. No ano em que se completam os 200 anos de nascimento de Charles Darwin e os 150 anos de A Origem das Espécies, a Flip receberá, pela primeira vez, um cientista. O biólogo norte-americano Richard Dawkins deve levantar a bandeira do ceticismo na mesa Deus, um Delírio, título de uma de suas obras.
Também no campo da não ficção, dois autores chineses vão debater a história recente da China e as restrições às liberdades naquele país. A mesa China no Divã será dividida entre Ma Jian, que relembra o massacre da Praça da Paz Celestial, há exatos 20 anos, no livro Pequim em Coma, e a jornalista Xinran, autora de Testemunhas da China, com relatos da revolução cultural dos anos 60. “A presença de Ma Jian e Xinran é um dos destaques, já que a Flip nunca havia recebido autores chineses”, comemora o curador.
Na sexta-feira (3), o jornalismo é o destaque da programação oficial e paralela. A profissão de repórter será abordada por Jon Lee Anderson, autor da principal biografia de Che Guevara, que estará na Casa da Cultura. O local que abriga eventos paralelos também receberá o escritor Milton Hatoum, o crítico literário Francisco Foot Hardman e a professora Walnice Nogueira Galvão para uma discussão sobre a obra de Euclides da Cunha (1866-1909), autor de Os Sertões. Ainda sobre jornalismo contemporâneo, o norte-americano Gay Talese participa, no palco oficial da festa, da mesa Fama e Anonimato.
No mesmo dia, Chico Buarque e Milton Hatoum dão suas visões sobre o Brasil na mesa Seqüências Brasileiras, uma das mais disputadas da Flip. Entusiasta da festa, Chico lançou recentemente Leite Derramado, em que repassa a história do Brasil a partir das memórias do narrador, que, do leito de morte, desfia passagens de apogeu e declínio de sua família por meio de quatro gerações.
No sábado (4), as atenções estarão voltadas para o português António Lobo Antunes, autor de Memória de Elefante, que retrata sua experiência no exército português na guerra colonial em Angola. Lobo Antunes é um dos poucos convidados da Flip com direito à exclusividade no palco. Em vez de dividir a mesa literária, será apenas entrevistado. Este é um dos argumentos do curador Flavio Moura para uma programação mais concisa, com 34 autores contra 41 em 2008. Moura rebate com um forte argumento as polêmicas e suspeitas lançadas sobre uma programação menor. Antes porém, taxativo, apressa-se em dizer que a crise econômica não teve nenhuma influência na programação. Ele diz que pode ter havido problemas para captação dos recursos, mas não houve na formação das mesas.
“A crise afeta todo mundo, é uma questão séria. Mas a programação não foi afetada em nada. Ela está um pouco menor, porque você tem que priorizar o tempo para os autores falarem. Sempre que possível, tentei enxugar as mesas ao máximo. A gente quer evitar que o autor viaje para a Flip e tenha pouco tempo para falar com o público”, disse.
A crise, por outro lado, deve levar à 7ª Flip reflexões sobre valores e princípios que moldaram o pensamento ocidental, mas que agora passam por profunda revisão. Ainda sob o impacto da chegada do primeiro negro ao poder nos Estados Unidos, o historiador inglês Simon Schama revisitará a história norte-americana à luz da ascensão do presidente Barack Obama. Schama estará no domingo (5) na mesa O Futuro da América, título de sua mais recente obra.
Flavio Moura reconhece que a presença de historiadores e jornalistas na programação da Flip favorece o debate sobre questões sociais e políticas. “Mas não foi intencional”, assegurou. “A Flip nunca se furta a discutir temas que estão na agenda do debate. Ela procura não se pautar unicamente por isso, porque é um evento literário, mas sempre que é possível trazer esse tipo de discussão para a programação, a gente o faz."
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